domingo, 3 de dezembro de 2017

Quero um Natal brasileiro

  Leonardo Sampaio
  
Quero um Natal,
Que não seja do Polo Norte,
O Natal do consumismo,
O Natal capitalista.

Quero um Natal,
Que seja brasileiro,
O Natal nordestino,
O Natal regional,
Indígena, afrobrasileiro e europeu
Que reuni todas as culturas brasileira
Com saberes e sabores da nossa terra

Quero um Natal,
Com nossa gente alegre e festeira
Seguidora do Jesus de Nazaré
O judeu arretado, cabra corajoso,
O Cristo libertador de toda forma de opressão,
Filho de José o carpinteiro e Maria
Mulher que conclama a derrubar os poderosos
E juntar-se ao Deus criador do universo,
Para construir um mundo justo e fraterno.

Quero um natal,
Com essa gente que acredita no pai Tupã,
Que tem crença nos Orixás,
Na mãe Iemanjá rainha das águas,
Nos deuses da vida e da fertilidade,
Que expressam da natureza sua espiritualidade.
Essa gente de fé, que com um ramo, rezam
e curam as dores do corpo e da alma.

Quero um Natal,
Com nossa culinária,
Baião de dois, vatapá e acarajé,
Cuscuz, tapioca e feijoada,
Buchada de bode e sarapaté,
Churrasco, paçoca e carne de sol,
Queijo, leite e manteiga,
Vegetais com folhas e raízes
Fruticultura com pitomba e pitanga
Pequi, manga, caju e açaí,
 Mamão, água de coco e melão.

Quero um Natal,
Com nossa musicalidade
Samba, forró e axé,
Coco, ciranda e toré,
Carimbó e sertaneja
E a MPB - Música Popular Brasileira.

Quero um Natal,
De luta por justiça e igualdade
Que honra, respeita e acolhe
Que defenda a liberdade
Com abraço amoroso
E aperto bem carinhoso.

Quero um Natal,
Junto ao Deus em que acredito,
e que esse nos traga paz e felicidade
mesmo diante de toda a diversidade.

Amém, axé, oxalá, aleluia.

30/11/2017


O Natal e a contradição

Leonardo Sampaio

Natal nos faz lembrar
Da família de Nazaré
Ou da família sagrada
Com Jesus, Maria e José.

Foi esse o modelo ideal
Pra toda a humanidade
Viver a consagração
De família e humildade.

Natal é nascimento
E também renovação
Promove aprimoramento
No amor e na emoção.

Natal com o Polo Norte
Promove exploração
E também consumismo,
Revela a contradição
De pobreza e humildade
Entre criador e criação.

Do Polo Norte vem um papai
Que é o Noel capitalista
Já do lado de Israel
Vem um Jesus socialista
Que prega a humildade
E um mundo de igualdade
Que contradiz o egoísta.

O Jesus foi humilhado
Perseguido e assassinado
Natal lembra o nascimento
E tudo por ele pregado
Justiça, amor, liberdade
Pra construir felicidade
Com um reino consagrado.

Já Papai Noel é o contrário
Traz egoísmo e exploração
Um Natal, cheio de ganancia
Desavença e contradição
Com a morte e o sofrimento
Que difere o nascimento
Que festeja a libertação.

 30/11/2017

Família é a que acolhe

Leonardo Sampaio

Família é a que acolhe
Dá amor e dá carinho
Nem sempre é a biológica
Mas quem dá colo no ninho
Mesmo sem amamentar
Mais chega como anjinho.

Ao nascer temos cultura
Formada no corpo e na alma
Vinda dos pais biológico
Que nos anima e acalma
Precisa sentir a origem
Pra saber cuidar com calma.

A cultura não separa
Em qualquer situação
Estará sempre a seu lado
Mesmo sendo adoção
Por isso os cuidadores
Acolhem no coração.

A família que acolhe
Será sempre a protetora
Nunca a substituirá
A cultura da genitora
Que a gerou em seu ventre
E a adotante é a cuidadora.

Ao honrar e respeitar
Libera toda a energia
O corpo se liberta
A alma se alivia
Olha para o futuro
E segue com alegria.

Segue para a vida
Agradece a natureza
Se liberta da dureza
Pra viver na pureza
Já sentindo a leveza
E toda sua beleza.

Viva a família adotante
Viva toda a criação
Dos deuses libertadores
De qualquer religião
Das pessoas adotantes
Que acolheram no coração.

29/11/2017 

domingo, 29 de outubro de 2017

Música e dança afrobrasileira

Leonardo Sampaio

O pesquisador popular Leonardo Sampaio, um dos membros fundador da Academia afrocearense de letras, com a cadeira número 6, apresenta seu trabalho de pesquisa sobre a cultura afrobrasileira e avalia que é uma cultura bastante diversificada, uma vez que foi influenciada por afrodescendentes, indígenas e europeus empobrecidos. Daí, vem o que passou-se a chamar de cultura popular, de folclore com as danças circulares que fazem parte da expressão do corpo que dança, rebola, faz o gingado e canta nos ritmos da ciranda, do coco, maracatu, frevo, axé, samba reggae, samba de roda, xote, xaxado, baião, marcha, forró, congada, maculêlê e capoeira, juntando-se aos cantadores de viola, a embolada, a literatura de cordel e a trova com versos e estrofes rimadas.
É dessa mistura de poesia, que nasce a musicalidade afrobrasileira que anima as festas e faz o público dançar com alegria, abrindo espaços nas comunidades negras, urbanas e rurais, lugares, de onde nasce todo o carnaval brasileiro, as festas juninas e tantas outras manifestações culturais com muitas cores, criatividade e sabedorias constituídas na musicalidade  afro, entoada pelos tambores ritmados das religiões de matriz africana, dando o tom da espiritualidade e a defesa das tradições de seus ancestrais.
É no espírito dessa tradição ancestral africana, que nasce o samba e o carnaval com as Escolas de Samba no Rio de Janeiro e em São Paulo, que nasce o Samba Reggae e o axé no carnaval da Bahia, que vem o Frevo com a dança no ritmo da capoeira em Pernambuco, o Maracatu ritmado e o preto velho, mais o rei e a rainha simbolizando o Congo da África, de onde veio grande parte dos escravizados para o Ceará e é assim que se faz a festa carnavalesca, com o Bumba-meu-boi no Maranhão, se espalhando pelos sertões nordestino e o boi de Parintins na Amazônia, Região Norte, onde tem também o Carimbó, no Estado do Pará.
Toda essa produção cultural alegra, promove felicidade e qualidade de vida às populações envolvidas, mesmo diante da desigualdade social que gera pobreza e luta de classe. Portanto, as festas populares tira estresse, uni e reúne as gerações para dar continuidade às tradições, como resultado da cultura afrobrasileira trazida pelos escravizados do continente africano, indígenas e europeus.

Isto é parte da cultura afrobrasileira, que se junta a culinária, as rezadeiras, a oralidade e a escrita que reúne pensadores na Academia afrocearense de letras – AAFROCEL, e agora transmitindo na Rádio terra da fraternidade na Cidade do Porto em Portugal diretamente do Ceará para o mundo. 

segunda-feira, 6 de março de 2017

Comentário sobre Maria da Hora



Leonardo Sampaio

Para falar de Maria da Hora, quero antes historiar o território onde ela pisou. O historiador Nirez fala do Sítio Pici (Percy), de 1909, o que levou essa parte da Cidade de Fortaleza, ser conhecida como Pici. Em 1927, Daniel de Queiroz compra esse Sítio e nele, a escritora Rachel de Queiroz escreveu seu primeiro livro “O quinze”. Na década de 1940 os americanos instalam uma Base Aérea de apoio à 2ª Guerra Mundial e no entorno da Base haviam Sítios e Chácaras. Na década de 1950, houve loteamento de alguns Sítios e a construção da Casa Popular, que era um conjunto habitacional, depois denominado de bairro Henrique Jorge. Já na década de 1960, houve grande fluxo de migração do interior do Estado para Fortaleza, começa a acontecer ocupações de terras e surgem as favelas: da Fumaça, Papoco, Auto do Bode, Entrada da Lua, Inferninho e Feijão todas constituídas por um contingente populacional de negros/as, indígenas e brancos empobrecidos vivendo em extrema miséria. Eram famílias deserdadas do campo, chegando na selva de pedra sem nenhuma qualificação profissional, para o mercado de trabalho e sem moradia. O ambiente em que foram morar se tornou insalubre, indigno de se viver, não havia energia, nem saneamento, faltava equipamentos público de atendimento à saúde, não existia escolas nem creches, as casa eram de taipe e as ruas eram becos estreitos cheios de lama, as ruas projetadas nos bairros não tinham nem calçamentos, era na verdade uma periferia abandonada pelo poder público.
Na década de 1970, o Governo Federal construiu o Centro Social Urbano César Cals, era tempo de Ditadura Civil-Militar no Brasil, o povo não votava para presidente da republica, nem para governadores dos estados e prefeitos das Capitais, todos eram nomeados pelos Generais ditadores, o Ceará passou a ser governado por Coronéis. Enquanto isso, o capitalismo se fortalecia, empresas estrangeiras tomam conta do país, as riquezas e as terras ficam cada vez mais concentrada nas mãos de poucos, o desemprego e a miséria estava cada vez mais crescente, o povo era proibido de se manifestar, a sociedade passou a ser vigiada, quem se opunha era perseguido, preso, torturado, exilado e até assassinado. Frei Tito de Alencar, jovem cearense que se rebelou pela fé, na defesa dos oprimidos, passou por todo esse estágio, junto com tantos outros brasileiros, por defender uma sociedade justa, fraterna e igualitária se opondo ao capitalismo e propondo o socialismo como alternativa de distribuição das riquezas, para que todos vivam com dignidade.
 No contraponto à ditadura e ao modelo de sociedade capitalista que gera desigualdade e exploração, em 1980, passei a integrar um setor da Igreja Católica ligada a Teologia da Libertação, que fizera opção preferencial pelos pobres, em busca de sua libertação, e formamos um grupo de missionários/as que iniciou o debate sobre a desigualdade na periferia de Fortaleza e em particular, no Sítio Ipanema, João Arruda, nas Favelas da Fumaça, Inferninho, Entrada da Lua, Feijão e nos bairros Genibaú, Autran Nunes, Henrique Jorge e Jóquei Clube. A escolha foi por serem comunidades formadas por sua maioria de migrantes negros, indígenas e brancos excluídos do mercado capitalista e do latifúndio. São pessoas vindas do interior do Estado do Ceará, atingidos pelas secas, falta de condições de trabalho, sem terra para plantar devido ao acumulo de riquezas nas mãos de poucos, bem como a ausência de escolas e atendimento à saúde, o que levou as famílias à extrema pobreza. Estas famílias, ao se instalarem nestes bairros e favelas do Oeste da Cidade, encontraram também suas identidades com o Campo, por serem bairros constituídos numa mistura entre urbano e rural, com ruas, sítios e criação de animais leiteiros e de corte, criados bem nas proximidades do Riacho Cachoeirinha, de lagoas e o açude do Sítio Pici, onde havia fertilidade de água e pastagem.
 Foi nesse ambiente de Cidade, que chegou a Comunidade Eclesial de Base – CEB, da Igreja Católica, com um grupo de missionários e missionárias para instalar uma Igreja viva no meio do povo em vista à sua libertação integral, tendo como guia a Bíblia, a palavra de Deus com a vida dos primeiros cristãos e o Cristo Libertador no olhar da Teologia da Libertação e o método: Ver, Julgar e Agir.
Essa discussão era conflituosa, porque se deparava com a Ditadura Civil-Militar, que tinha seus agentes do Estado, da sociedade civil e se somava à Igreja conservadora, que tinha como princípio a sustentação do modelo de exploração e a economia capitalista. Por outro lado, as CEBs chega pregando uma sociedade igualitária, justa, fraterna, tendo como base bíblica, a vida dos primeiros cristãos, que trabalhavam, produziam e dividiam a produção de acordo com suas necessidades. Essas ideias das CEBs foram taxadas pelo conservadorismo, de “comunista”, portanto, os missionários e missionárias eram apontados como pessoas perigosas, terroristas que se infligiam contra o Estado de Direito. Esse debate dividia o povo, trazia incertezas, os cristãos não sabiam de que lado ficavam, se na Igreja conservadora, ou a progressista dos ditos “comunistas”. A presença do padre conservador, da Paróquia, dos sacramentos, da manipulação, fortalecia a Ditadura, até que D. Aloisio Lorscheider veio ao encontro das CEBs e afirmou que a Igreja Comunidade inserida no meio dos pobres, refletindo a realidade, julgando os responsáveis pela desigualdade social e agindo para melhorar a vida das pessoas pobres, criando uma consciência critica, era o caminho da verdadeira Igreja de Jesus Cristo que fez opção preferencial pelos pobres. Esse posicionamento de D. Aloisio fez crescer as CEBs e fortalecer as organizações populares para reivindicar os direitos negados pelo Estado. A comunidade na sua praxidade  instalou a Escolinha Comunitária Frei Tito, para alfabetização de crianças, jovens e adultos no método Paulo Freire, já que não havia nenhum equipamento educacional do Estado. Para amenizar a fome, foi criada hortas comunitárias para gerar alimentos e ao mesmo tempo ter a prática da coletividade.
Nesse confronto de ideias, o conservadorismo local passou a se organizar também, para se contrapor aos movimentos progressistas e foi nesse contexto que conheci a Maria da Hora como líder de base conservadora, com um carisma muito forte e ao lado dos ditadores. Porém, ela se destacava com um víeis diferenciado, voltado para a educação, já que não havia escolas oficiais para as crianças pobres estudarem e foi nesse campo da educação que ela priorizou sua ação comunitária, trazendo grandes conquistas de escolas e creches, formando o Complexo Educacional Maria da Hora, institucionalizado pelo Instituto Beneficente Sítio Ipanema. E assim, Maria da Hora desempenhou um grande papel no desenvolvimento do Bairro e marcou a vida das pessoas pela sua bondade. Trouxe alimentos dos programas Federais para distribuir com a pobreza marcada pela fome, conseguiu linha de ônibus, ampliação da rede dede energia e calçamentos. A ditadura se aproveitava da sua liderança para aplicar a política assistencialista, com intuito de amortecer as lutas populares contra o poder ditatorial no país. Ela pouco se importava com o contexto político, preferia o prestigio junto às autoridades constituídas no poder estatal para conseguir as melhorias pra a comunidade.
Em outra ocasião, no Colégio Demócrito Rocha havia uma programação do Bairro Henrique Jorge e adjacências para discutir as necessidades das comunidades, com a presença do Prefeito Antônio Cambraia, sendo que, a Rádio AM O Povo promoveu um debate ao vivo com o Prefeito, eu e Maria da Hora. Na ocasião Cambraia falava do alargamento da Av. Perimetral, que obviamente atingiria o Complexo Educacional Maria da Hora e na sua intervenção, ela argumentou que no Henrique Jorge não havia necessidade de alargar a Perimetral porque já havia uma Avenida pronta que era a Heribaldo Costa, necessitando apenas estende-la até ao CSU César Cals, com isso beneficiaria o Bairro e a prefeitura faria grande economia por não necessitar realizar indenizações e manteria a tranquilidade das famílias que seriam atingidas. O prefeito acatou a proposta e assim foi feito a obra de utilidade para o lado Oeste de Fortaleza.
A sociedade é formada por contradições de pensamentos, de ideologias, de ações e de praxidades que se confundem quando se trabalha com o mesmo público, em que ambos lideres querem a melhoria de vida daqueles, mas por caminhos diferentes, com leituras de mundo adversas e foi assim esse meu encontro com a grande líder Maria da Hora. Mulher de fibra e compromissada com o que acreditava.
Foi essa a Maria da Hora que conheci e acho justo e necessário registrar sua história em livro e em equipamentos públicos pela sua reverência, por suas lutas e conquistas em beneficio dos mais necessitados.
10/01/2017

8 de março



Nas greves e nas praças
Houveram manifestações
Mulheres foram queimadas
Por suas reivindicações
8 horas de trabalho
Salários e promoções.

Muitas são as vitórias
Que as mulheres conquistaram
O 8 de março é a data
Que na luta elas marcaram
O dia internacional
Para o direito ser igual
Foi nas ruas que ganharam.

Outras grandes conquistas
Como o direito de votar
A Lei Maria da Penha
Pra violência acabar
Combatendo o machismo
De uma cultura milenar.

O dia internacional
Da data comemorativa
Revela a mulher valente
À frente da  luta ativa
Pra buscar seus direitos
E não viver como cativa.

A mulher sempre é guerreira
É botão de flor e é rosa
É uma eterna professora
É a pérola primorosa
Esculpida pelo o criador
Pra ser meiga e carinhosa.

Leonardo Sampaio
05/03/2017